Romi-Isetta: o primeiro carro brasileiro nasceu de uma fábrica de tornos, não de uma montadora, por Mário Augusto de Castro

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez
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Mario Augusto de Castro

Uma empresa conhecida por fabricar tornos mecânicos e implementos agrícolas dificilmente seria a primeira aposta de alguém tentando adivinhar quem produziu o primeiro automóvel de passeio genuinamente fabricado em série no Brasil. Esse tipo de origem industrial distante do setor automotivo, observa o colecionador de veículos antigos Mário Augusto de Castro, era mais comum do que se imagina entre os primeiros fabricantes de carros no país, já que a indústria automotiva nacional ainda engatinhava naquele período. Foi exatamente esse o caso da Romi, indústria de Santa Bárbara d’Oeste, no interior de São Paulo, responsável pelo lançamento do Romi-Isetta em 5 de setembro de 1956, décadas antes de qualquer outra fabricante nacional conseguir repetir o feito de produzir um carro completo em série a partir do zero.

O projeto do Isetta nasceu na Itália, desenvolvido pela fabricante Iso como um microcarro urbano de porta única na frente, pensado para oferecer mobilidade barata em cidades com ruas estreitas no pós-guerra europeu. Quando a produção italiana foi encerrada em 1956, a Iso licenciou o projeto à Romi, que já vinha de décadas de experiência fabricando máquinas industriais, mas nunca havia produzido um automóvel completo antes, precisando adaptar rapidamente toda sua estrutura fabril para dar conta de um produto tão diferente do que costumava sair de suas linhas de montagem.

A decisão de entrar no mercado automotivo

A Romi via no Isetta uma oportunidade de diversificação natural, aproveitando sua já consolidada capacidade de fundição e usinagem de peças metálicas para entrar em um setor completamente novo, mas que exigia habilidades técnicas próximas das que a empresa já dominava há décadas, desde a fabricação de tornos até equipamentos agrícolas complexos. Essa transição de máquinas industriais para automóveis de passeio era incomum, nota Mário Augusto de Castro, mas fazia sentido dentro da lógica de aproveitamento de capacidade fabril que muitas empresas brasileiras buscavam naquele período de industrialização acelerada.

O lançamento, em setembro de 1956, foi celebrado com um grande desfile pelas ruas de São Paulo, reforçando o caráter simbólico de apresentar ao país o primeiro automóvel de passeio produzido em série em solo brasileiro. Apesar da falta de incentivos fiscais específicos para esse tipo de empreendimento, a Romi seguiu adiante com a produção, motivada pelo ineditismo do projeto dentro do cenário industrial nacional daquele momento, quando poucas empresas ousavam arriscar capital em um setor tão distante de sua atuação original.

O primeiro motor do Romi-Isetta e porque ele mudou ao longo da produção

Os primeiros exemplares do Romi-Isetta utilizavam motor italiano Iso de 200 centímetros cúbicos e 12 cavalos, suficiente para levar o pequeno carro a cerca de 85 quilômetros por hora, número modesto, mas adequado ao uso urbano para o qual o veículo havia sido projetado desde a origem europeia do projeto. Em 1959, a produção passou a usar motores de origem BMW, de 300 centímetros cúbicos, já que a empresa alemã havia assumido o próprio projeto do Isetta na Europa alguns anos antes, redesenhando fábricas inteiras em torno do novo conjunto mecânico.

Mario Augusto de Castro
Mario Augusto de Castro

Essa mudança de fornecedor de motores ao longo da produção brasileira reflete como o próprio projeto internacional do Isetta foi se transformando durante a década de 1950, passando por diferentes mãos e fornecedores conforme o interesse comercial de cada empresa envolvida mudava ao longo do tempo. Para colecionadores, Mário Augusto de Castro expressa que essa transição de motorização é um dos principais fatores usados para identificar a fase exata de fabricação de cada exemplar remanescente hoje disponível no mercado de clássicos.

O Romi-Isetta apareceu em produções de cinema da época

O visual inconfundível do Isetta, com sua porta única na frente e formato compacto e arredondado, tornou o carro uma escolha visual atraente para produções cinematográficas brasileiras da década de 1950, aparecendo em comédias como “Absolutamente Certo”, de 1957, e “Vou te Contá”, de 1958. Segundo Mário Augusto de Castro, essas aparições ajudaram a consolidar o Isetta na memória popular brasileira, muito além do círculo de compradores originais do veículo, alcançando um público que talvez nunca tivesse visto o carro pessoalmente nas ruas.

Esse tipo de exposição cultural, somada ao ineditismo de ser o primeiro carro de passeio nacional, ajuda a explicar por que o Romi-Isetta continua sendo lembrado décadas depois, mesmo tendo sido produzido em escala relativamente pequena e por um período curto de apenas cinco anos, entre 1956 e 1961.

O que a trajetória do Romi-Isetta revela sobre a industrialização brasileira dos anos 1950?

O caso do Romi-Isetta mostra como o início da indústria automotiva brasileira não veio necessariamente de empresas já especializadas em veículos, mas também de fabricantes de outros setores dispostos a arriscar em um mercado completamente novo. A trajetória da Romi, de tornos mecânicos a automóveis de passeio, ilustra a versatilidade industrial que caracterizou boa parte da expansão fabril brasileira daquele período, quando fronteiras entre setores industriais ainda eram bem mais fluidas do que se tornariam décadas depois.

Mário Augusto de Castro resume que preservar um exemplar do Romi-Isetta hoje significa guardar um fragmento direto do momento em que o Brasil começou a construir sua própria indústria automotiva, ainda que por meio de um projeto licenciado do exterior, adaptado por uma empresa que, até então, jamais havia colocado um carro completo nas ruas do país, e que decidiu arriscar justamente num momento de grande efervescência industrial nacional.

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