Ficar em silêncio não é mais seguro do que oferecer apoio imperfeito, alerta a psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio

Margot Bellier
Por Margot Bellier
5 Min de leitura
Taiza Tosatt Eleoterio

A psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, especialista em saúde mental e relações familiares, observa que muitas pessoas bem-intencionadas evitam se manifestar diante de uma amiga em relacionamento abusivo por medo de dizer algo errado e piorar ainda mais a situação, quando, na verdade, esse silêncio prolongado também carrega consequências reais e muitas vezes completamente ignoradas por quem o pratica.

Essa hesitação constante e recorrente, embora bastante compreensível e movida por cuidado genuíno e afeto real, costuma se basear na ideia equivocada de que não fazer absolutamente nada é sempre a opção mais segura e prudente, tanto para quem observa de fora com carinho quanto para quem vive a situação de perto no dia a dia difícil.

O mito de que é melhor não dizer nada por medo de piorar

A preocupação constante, ansiosa e recorrente em “não piorar as coisas de jeito nenhum” costuma levar amigos e familiares próximos a evitar completamente o assunto por meses seguidos, esperando um momento mais adequado e supostamente perfeito que, muitas vezes, nunca chega de fato, enquanto a situação continua se desenrolando lentamente em silêncio absoluto dentro de casa.

Esse tipo de cautela excessiva e paralisante parte de uma boa intenção genuína e sincera, mas ignora completamente que o silêncio absoluto e prolongado também comunica algo importante e significativo: pode ser interpretado, mesmo sem essa intenção explícita, como indiferença, desinteresse ou até como validação implícita de que aquela dinâmica é normal, aceitável e não merece nenhum comentário sequer.

Por que o silêncio também tem um custo real?

Taiza Tosatt Eleoterio destaca que mulheres em relacionamentos abusivos frequentemente relatam, já bem depois de saírem definitivamente da relação, que gostariam de ter sido questionadas antes por alguém próximo e de confiança, mesmo que de forma imperfeita ou desajeitada, porque isso ao menos sinalizaria que alguém percebia e se importava de verdade com o que estava acontecendo em sua vida diária.

O silêncio prolongado e constante das pessoas ao redor também reforça bastante e de forma real o isolamento que já é característico desse tipo de relação abusiva, aumentando ainda mais e de forma significativa a sensação de que ninguém mais enxerga o problema real ou se preocupa o suficiente para mencioná-lo com cuidado, mesmo que de forma delicada e respeitosa com as palavras escolhidas.

O que fazer em vez de ficar em silêncio?

Uma frase simples, genuína, calorosa e direta, como “percebi que você tem parecido mais quieta ultimamente, está tudo bem com você?”, já comunica cuidado real sem exigir que a outra pessoa revele absolutamente tudo de imediato ou tome qualquer decisão precipitada naquele exato momento delicado.

Taiza Tosatt Eleoterio considera que o objetivo real dessa primeira aproximação delicada e cuidadosa não é resolver a situação inteira de uma só vez, mas apenas abrir uma porta que a pessoa poderá atravessar quando estiver pronta e se sentir segura, sabendo que existe alguém por perto disposto a escutar sem julgamento algum ou pressão.

Apoio imperfeito ainda é apoio

Errar a forma exata de abordar esse assunto tão delicado, escolher palavras que talvez não sejam as ideais naquele momento, ou não saber exatamente o que dizer em seguida, não anula, de forma alguma, o valor genuíno do gesto de se aproximar com cuidado sincero.

Na concepção de Taiza Tosatt Eleoterio, o apoio imperfeito e desajeitado, oferecido com sinceridade e boa intenção genuína, costuma valer muito mais do que o silêncio perfeitamente educado que, na prática cotidiana, deixa a pessoa completamente sozinha diante de uma situação que já é, por si só, profundamente solitária e difícil de enfrentar sem nenhuma ajuda externa próxima.

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