Avanço da IA já aparece nos rankings de riqueza e mostra como tecnologia, capital e startups estão redefinindo a formação de patrimônios bilionários.
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma promessa tecnológica e passou a ocupar um espaço central na formação de grandes fortunas. A edição de 2026 da Forbes 400, divulgada nos últimos dias, mostra que dezenas de novos bilionários americanos chegaram ao ranking em um cenário impulsionado principalmente por empresas de tecnologia e inteligência artificial. Entre os estreantes estão nomes ligados à Anthropic, OpenAI e Cognition AI, enquanto fortunas já estabelecidas também cresceram com a valorização de companhias associadas à infraestrutura necessária para a nova geração de sistemas inteligentes.
O fenômeno interessa não apenas a quem acompanha os homens e mulheres mais ricos do mundo, mas também a empreendedores brasileiros. A dúvida que surge é direta: como a inteligência artificial está conseguindo transformar participação em startups e empresas de tecnologia em patrimônios de bilhões de dólares? A resposta passa por propriedade intelectual, participação acionária, capital de risco, computação e capacidade de transformar uma tecnologia em plataforma utilizada por milhares ou milhões de clientes.
Por que a inteligência artificial está criando tantos novos bilionários?
A edição 2026 da Forbes 400 ajuda a dimensionar a força econômica da inteligência artificial. Segundo a publicação, 34 pessoas entraram pela primeira vez no ranking dos 400 americanos mais ricos, acumulando juntas US$ 321 bilhões. Mais de uma dúzia desses novos nomes está ligada diretamente à inteligência artificial, incluindo Steven Hao, cofundador da Cognition AI, e seis cofundadores da Anthropic, empresa responsável pelo Claude. Greg Brockman, cofundador da OpenAI, aparece como o estreante mais rico, com patrimônio estimado em US$ 25,5 bilhões.
O ponto mais importante é que essas fortunas não surgiram simplesmente porque os empresários vendem um produto de inteligência artificial. O principal mecanismo está na participação societária. Quando uma startup recebe grandes rodadas de investimento e passa a ser avaliada em dezenas ou centenas de bilhões de dólares, os fundadores e primeiros investidores podem ter suas participações valorizadas de forma extraordinária, mesmo sem transformar esse patrimônio em dinheiro imediatamente. É uma dinâmica conhecida no mercado de tecnologia: o valor de uma empresa privada pode crescer muito antes de ocorrer uma abertura de capital ou uma venda da companhia. Por isso, rankings como o da Forbes estimam patrimônios com base em participações empresariais, preços de mercado e outras informações disponíveis, e não significam necessariamente que todo o valor esteja disponível em dinheiro.
Outro aspecto relevante é que a corrida da IA não beneficia apenas quem desenvolve modelos. A cadeia inclui fabricantes de chips, empresas de computação em nuvem, data centers, infraestrutura energética, softwares corporativos e companhias capazes de aplicar inteligência artificial a setores tradicionais. A própria Forbes destaca que Larry Page, cofundador do Google, alcançou patrimônio estimado em US$ 278 bilhões, impulsionado pela valorização da Alphabet e pelo desempenho de negócios relacionados a nuvem e inteligência artificial. Michael Dell também aparece entre os maiores patrimônios, em um contexto de aumento da demanda por servidores destinados à IA.
O que a nova onda de IA ensina sobre a construção de grandes fortunas?
A principal mudança provocada pela inteligência artificial está na velocidade com que uma empresa de tecnologia pode alcançar escala. Uma startup tradicional pode precisar construir fábricas, abrir lojas ou desenvolver uma extensa rede física antes de atender um mercado global. Um produto digital baseado em IA, por outro lado, pode ser distribuído internacionalmente pela internet, embora necessite de investimentos pesados em computação, dados, engenharia e infraestrutura. Essa combinação permite que uma empresa relativamente jovem seja avaliada em cifras extraordinárias quando consegue demonstrar tecnologia diferenciada, crescimento rápido e potencial de mercado.
O caso brasileiro também mostra que a tecnologia continua sendo capaz de produzir patrimônios relevantes, embora em escala diferente da observada no mercado americano. A Forbes Brasil identificou três bilionários ligados diretamente ao setor de tecnologia em sua lista de 2026: Eduardo Saverin, da Meta e B Capital; José Roberto Nogueira, fundador da Brisanet; e Laércio Cosentino, da Totvs. Saverin aparece como o brasileiro mais rico, com patrimônio estimado em R$ 162,9 bilhões, enquanto Nogueira e Cosentino aparecem com aproximadamente R$ 1,4 bilhão cada.
A trajetória desses empresários evidencia que grandes fortunas tecnológicas podem nascer de caminhos bastante diferentes. Saverin participou da criação do Facebook e posteriormente construiu uma atuação no venture capital, enquanto Nogueira desenvolveu uma empresa de telecomunicações a partir do interior do Ceará. Cosentino, por sua vez, fundou a Microsiga, que posteriormente se tornou a Totvs e expandiu sua atuação em software empresarial. São histórias distintas, mas existe um elemento comum: a propriedade de uma participação relevante em empresas que conseguiram transformar tecnologia em negócios escaláveis.
Essa característica também ajuda a explicar por que o capital de risco ganhou tanta importância na economia da inteligência artificial. Startups que precisam de enormes investimentos para desenvolver modelos e infraestrutura podem recorrer a fundos especializados, que assumem participação na empresa em troca do capital. Se o negócio crescer significativamente, fundadores e investidores iniciais podem ver suas participações se valorizarem. O risco, porém, permanece elevado, porque muitas empresas de tecnologia não conseguem alcançar escala suficiente, e avaliações privadas podem mudar rapidamente.
Como a corrida da inteligência artificial pode mudar os negócios nos próximos anos?
A concentração de novas fortunas em torno da inteligência artificial sugere que a disputa econômica não ficará restrita aos laboratórios que desenvolvem modelos generativos. O próximo estágio envolve infraestrutura, aplicações corporativas, segurança, automação, robótica, energia e serviços especializados. O acordo entre a canadense Cohere e a alemã Aleph Alpha, anunciado como uma combinação voltada ao mercado corporativo de IA, é um exemplo de como empresas estão procurando ganhar escala e oferecer sistemas que possam atender exigências regulatórias e funcionar dentro da infraestrutura dos próprios clientes.
Para empreendedores brasileiros, essa transformação abre espaço para negócios que não precisam necessariamente criar um novo modelo de inteligência artificial do zero. Empresas podem desenvolver aplicações especializadas para setores como agronegócio, saúde, indústria, finanças, logística, varejo e serviços públicos. O diferencial pode estar no conhecimento específico do setor, na qualidade dos dados, na integração com sistemas existentes e na capacidade de resolver problemas concretos. Nesse sentido, a próxima geração de grandes empresas de tecnologia pode surgir não apenas entre os fabricantes da tecnologia fundamental, mas também entre aqueles que souberem transformá-la em ferramentas úteis.
Há ainda uma consequência importante para o mercado de capitais. À medida que empresas de IA amadurecem, investidores passam a observar não apenas crescimento de usuários, mas também custos de computação, geração de receita, margens, necessidade de capital e capacidade de transformar inovação em fluxo de caixa. A B3, por sua vez, acompanha uma transformação mais ampla do mercado brasileiro, que registrou volume médio diário de negócios de R$ 30,3 bilhões em agosto de 2026, segundo dados divulgados pela própria bolsa e repercutidos recentemente.
O cenário indica que a inteligência artificial pode continuar sendo uma das principais forças de transformação empresarial nos próximos anos, mas a formação de grandes fortunas dependerá de algo mais complexo do que simplesmente estar no setor. Tecnologia, capital, propriedade intelectual, execução, escala e governança precisarão caminhar juntos. Para quem acompanha o universo dos bilionários, o fenômeno oferece uma pista importante sobre a próxima fase da economia digital: o valor poderá estar tanto na criação dos modelos quanto na infraestrutura e nas aplicações capazes de transformar IA em negócios sustentáveis.
Forbes Brasil — Forbes 400 de 2026
Forbes Brasil — Os estreantes mais ricos dos Estados Unidos
Forbes Brasil — Bilionários brasileiros da tecnologia em 2026
Forbes Brasil — Os 10 maiores bilionários do Brasil em 2026